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Um novo começo

Ao longo da história, calamidades que destroem parte do que foi sendo construído ao longo de muitos anos dão origem a um novo começo, que pode ser a ocasião de aprender as lições que podemos captar dessas calamidades. Também pode ser uma ocasião para repensar os alicerces em que assentavam as sociedades até então, para que o que se construir de novo não reproduza os defeitos do que foi destruído. Foi o que sucedeu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial e é o que pode suceder agora, depois da pandemia do coronavírus

Com esse objetivo, o Papa Francisco fez nascer um grupo de trabalho no âmbito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Também nessa linha, os bispos portugueses publicaram recentemente o documento de reflexão Recomeçar e Reconstruir

Esse documento salienta, como lição prioritária a colher da tragédia desta pandemia, a da redescoberta do valor inestimável da vida humana, pois só esse valor poderá justificar as também trágicas consequências económicas e sociais das medidas tomadas para impedir a difusão da doença. À redescoberta do valor da vida humana está associada a redescoberta do valor da missão dos ser- viços de saúde (acessíveis a todos) e dos seus profissionais, merecedores de uma atenção e de um reconhecimento que fomos esquecendo nos últimos tempos. Esse valor da vida não é menor quando são, sobretudo, os idosos as vítimas a proteger e só pode lamentar-se que muitos residentes em lares tenham sofrido mortes que poderiam ter sido evita- das. Há, então, que dar outra atenção à condição dos idosos e das instituições que deles cuidam. 

A pandemia fez-nos sentir que somos uma só família humana e que «estamos todos no mesmo barco». Seria bom – diz também este documento – que esta consciência se estenda a outros âmbitos da vida social, desde logo ao modo de enfrentar a crise económica e social que já estamos a experimentar. Superar esta crise exige uma inédita coesão entre agentes sociais e políticos. Ao Estado cabe um importante papel, mas talvez ainda mais importante seja o da sociedade civil. Esta crise parece não ter precedentes em gravidade e, por isso, reclama um esforço de solidariedade também sem precedentes. Aos cristãos cabe uma particular responsabilidade, se quiserem seguir o exemplo das primeiras comunidades cristãs, onde, pela comunhão de bens, «não havia indigentes» (At 4, 34-35). 

Quanto aos alicerces em que deve assentar a economia a reconstruir, salienta este documento que esta deve ser uma ocasião para repensar o sistema económico, para preservar o que ele tem de bom e para corrigir o que ele tem de negativo e injusto. Pode ser uma ocasião de construir um sistema que não seja gerador das desigualdades que o sistema que nos rege tem gerado, e que também tenha em conta as exigências de salvaguarda do ambiente. Pode ser uma ocasião de construir um sistema em que os valores da solidariedade não movam apenas as ações de apoio social, mas penetrem também na economia e no mercado. 

Esta pode ser uma ocasião de implementar a globalização da solidariedade, desde logo no plano da saúde pública, a qual não pode deixar de ter, hoje mais do que nunca, uma dimensão universal, que se estende para além desta pandemia. Tornar universal o acesso à futura vacina contra a covid-19 é dos primeiros passos nesse sentido. 

Se tudo isso for tido em conta, a crise transformar-se-á em oportunidade e poderemos dizer que «há males que vêm por bem».

> Artigo publicado na Revista Cidade Nova de julho de 2020