Uma voz que faz falta
- Pedro Vaz Patto
- 20 Maio, 2025
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- Opinião
Escrevo estas linhas poucos dias depois de o Papa Francisco ter recebido alta hospitalar e ter regressado a casa. Os dias precedentes foram de intensa suspensão vivida por muitas pessoas em todo o mundo. Muitos rezaram e muitos mais seguiram com preocupação todas as notícias que os media iam transmitindo a par e passo. Parece que a vida do “querido Papa Francisco” (como o designam carinhosamente) chegou mesmo a estar em perigo. Foi com muita alegria saudado o seu restabelecimento.
Neste momento não sabemos de que modo poderá o Papa continuar a sua missão. Certamente não poderá fazê-lo ao ritmo que o fazia anteriormente. Como outros seus antecessores, já afirmou que não encara essa missão como uma tarefa a prazo, mas como uma entrega incondicional que só cessará quando, em consciência, concluir que não estão nele reunidas as indispensáveis condições físicas e mentais. Até lá, essa missão há de ser desempenhada com as fragilidades próprias da natureza humana sujeita à doença e à velhice, um eloquente testemunho contra aquela “cultura do descarte” que este Papa tem denunciado com frequência.
Faz-nos refletir esse inusual interesse pela saúde de uma pessoa que ocupava os noticiários dia após dia. Mas mais do que esse interesse, o que me parece de salientar foi o que li de comentadores e ouvi a pessoas comuns, das mais variadas convicções, católicos e outros cristãos e fiéis de outras religiões, crentes e não crentes: a voz de Francisco faz falta no mundo de hoje. Podemos até dizer que cada vez faz mais falta, pois parece que cada vez são mais acentuados os males contra os quais se tem feito sentir essa voz, que com frequência parece uma “voz que clama no deserto”.
Fazem falta os seus apelos à paz, quando parece que devemos desistir de um mundo regido pelo direito internacional, perder os progressos feitos nesse sentido depois das guerras do século passado e regressar aos conflitos de poder onde rege a lei do mais forte e a guerra se banaliza.
Fazem falta os seus apelos ao acolhimento de imigrantes e ao diálogo entre culturas, quando crescem as forças que hostilizam o estrangeiro e colocam os egoísmos nacionais acima da ética e da fraternidade universal.
Fazem falta os seus apelos ao amor preferencial pelos pobres, quando as pessoas mais ricas do mundo parecem querer ditar, ilegítima e imperialmente, os destinos de todos nós de acordo com os seus interesses.
Fazem falta os seus apelos ao cuidado da casa comum, quando esmorece a preocupação pelo futuro do planeta, menor do que aquela que se notava até há algum tempo.
Fazem falta os seus apelos à defesa da vida humana em todas as suas fases, da conceção até à morte natural, quando são cada vez mais os países com leis em sentido contrário.
E faz também falta o seu apelo à esperança, cerne do ano jubilar que a Igreja celebra este ano, quando, perante as tragédias que hoje invadem o mundo, muitos serão tentados a cair no desespero.
> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova de maio de 2025
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