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A Unidade e a Paz

Poucas horas depois da eleição do Papa Leão XIV, já se pediam vaticínios sobre o seu pontificado. Parecia-me na altura prematuro responder a esses pedidos apenas a partir das primeiras palavras e dos primeiros gestos simbólicos. Os comentários então solicitados pelos mais variados meios de comunicação social contrastavam com algum habitual desinteresse pela vida da Igreja noutras ocasiões também significativas. 

Mas todo esse interesse era um claro sinal de que muitas expetativas nasciam em torno de um novo pontificado. Expetativas que vinham de muitos quadrantes da sociedade e de muitas áreas geográficas. Passados alguns meses, já se poderá dizer algo um pouco mais consistente sobre essas expetativas.

A unidade da Igreja é dos propósitos que Leão XIV mais tem sublinhado nestes primeiros tempos do seu pontificado.  Foi eleito logo à quarta votação por mais de dois terços de um colégio muito diversificado. Mas não podemos ignorar que algumas dessas diferenças (como as que opõem os chamados progressistas aos chamados conservadores) originam tensões e desorientação. 

Esse propósito prioritário reflete-se no lema inscrito no brasão pontifício, a frase de Santo Agostinho In illlo uno unum – somos um só no único Jesus Cristo. A unidade, que não é uniformidade, também não é um simples denominador comum superficial, é a unidade em Jesus Cristo. É aquela unidade que Jesus pediu ao Pai antes de morrer, como seu testamento: «Que todos sejam um, como Tu e Eu somos um» (Jo 17, 21-24). A unidade que não anula a distinção, mas não é menos sólida e profunda, porque assente no amor e na doação recíprocos, a unidade à imagem da Trindade.

Leão XIV demonstrou logo a vontade de continuar a ação do seu antecessor, Francisco. Adere sem reservas ao “caminho sinodal” por este iniciado e programado. Mas esse caminho não se destina a criar ruturas e divisões, destina-se a reforçar, através do contributo de todos, a unidade da Igreja,

Das primeiras palavras pronunciadas pelo Papa Leão XIV logo a seguir à sua eleição, merece destaque o seu apelo à paz. Um apelo que repetiu várias vezes desde então.

Esse apelo é particularmente atual e oportuno, quando se perpetuam guerras que parecem não ter fim e parece quase unânime a ideia de que, para evitar outras guerras, há que reforçar as despesas militares em larga escala. Afirma-se, de forma recorrente, que o período de paz e prosperidade que se viveu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial foi algo de excecional e que normais são os conflitos bélicos que sempre marcaram e hão de marcar a história da humanidade. Mas desse modo esquecemos o abismo de morte e destruição onde isso já nos conduziu e pode conduzir-nos no futuro. E a paz autêntica e duradoura não nasce da lógica da ameaça e da dissuasão. A essa lógica não podemos resignar-nos, como se não houvesse alternativas. 

Sobre este tema, a voz de Leão XIV parece ser, na verdade, uma «voz que clama no deserto», uma voz “contra a corrente”. Não se trata de uma ilusão utópica que ignora a dureza da realidade. É a razão que nos diz que a guerra é, na expressão de São João Paulo II, «uma derrota da humanidade». Pensemos, por exemplo, na recente guerra entre Israel e o Irão. Como será possível pensar que dela não resulta o agravamento do clima de hostilidade e ódio entre povos e governantes desses dois países, um clima que nunca permitirá que no futuro cada um deles viva em paz e segurança?

Importa, porém, sublinhar que a paz a que Leão XIV se refere não é apenas a ausência de guerra. É fruto da justiça, como também dizia Santo Agostinho. Mas não se limita à esfera política. É, como ele afirmou na sua primeira alocução e de distintos modos repetiu desde então, a «a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz desarmante, que é humilde e perseverante, que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente».

> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova  de agosto/setembro de 2025