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Estar no mundo sem ser do mundo

Neste número da nossa revista publicamos duas entrevistas a sociólogos sobre algumas das tendências mais marcantes das sociedades contemporâneas. Algumas delas são: o predomínio da cultura do provisório com a dificuldade em assumir compromissos e manter relações duradouras; a valorização da autenticidade e da liberdade, por vezes numa perspetiva individualista que rejeita vínculos comunitários; a polarização alimentada pelas redes sociais que geram grupos que não dialogam entre si (verdadeiras “bolhas”); o medo e a rejeição do diferente e do estrangeiro (“nós contra eles”).

Essas tendências não devem ser ignoradas, mas também não sobrevalorizadas como se nada de positivo pudéssemos encontrar no mundo contemporâneo. É este o mundo que somos chamados a compreender, amar e transformar. De nada vale fugir deste mundo ou alimentar a nostalgia do passado como se nele não houvesse também muito de negativo. Mas também não é salutar seguir acriticamente o “ar do tempo” e a cultura dominante sem contrariar o que não representa qualquer progresso. 

Vem-me à ideia, a propósito, o exemplo dos primeiros cristãos, de quem se dizia que «estão no mundo sem ser do mundo». 

Conhecer a atitude dos primeiros cristãos num mundo hostil e que se guiava por critérios existenciais, morais e culturais bem distantes dos seus, é o objeto do livro do historiador italiano Leonardo Lugaresi Vivere da cristiani in un mondo non cristiano – L´ esempio dei primi secoli (Lindau, Turim, 2020). Segundo o autor deste livro, os primeiros cristãos revelaram uma extraordinária capacidade de relacionamento com o mundo do seu tempo, influenciando-o (suscitando reações de hostilidade, mas também de admiração e apreço) mesmo sendo minoritários. Duas poderiam ter sido as suas atitudes no confronto com o mundo pagão que teriam impedido essa capacidade de influência, mas que eles rejeitaram. Uma poderia ter sido a da assimilação, a de se deixar influenciar pela mentalidade então corrente, para evitar a hostilidade e a marginalização. Teriam acabado por não se distinguir dos outros. Se tivessem seguido essa via, não falaríamos hoje de cristianismo. Outra atitude poderia ter sido a do fechamento: preservando acima de tudo a sua identidade, acentuando as suas diferenças numa postura de radicalização, quebrando os laços com as outras pessoas e grupos. Essa atitude também não teria contribuído para a incidência dos primeiros cristãos no mundo de então.

Em plena Segunda Guerra Mundial, Chiara Lubich e quem então a seguiu descobriram que, nesse tempo e não noutro, Deus as chamava a realizar o que Jesus pedira ao Pai antes de morrer. «Que todos sejam um, como Tu e Eu somos um». Não fugiram do mundo, mas não o aceitaram tal como era, tão distante desse ideal de unidade. Um ideal que é hoje tão atual com o era nessa época. Foi isso mesmo que afirmou recentemente o Papa Leão XIV aos membros da assembleia geral do Movimentos dos Focolares: «Hoje há grande necessidade deste fermento de unidade, porque o veneno da divisão e da conflituosidade tende a contaminar os corações e as relações sociais, e deve ser combatido com o testemunho evangélico da unidade, do diálogo, do perdão e da paz. Também através de vós Deus preparou, nas últimas décadas, um grande povo da paz, que precisamente neste momento histórico é chamado a servir de contrapeso e baluarte contra tantos semeadores de ódio que levam a humanidade a retroceder, para formas de barbárie e de violência».

> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova  de maio de 2026