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Compromisso pela Paz

Não pode deixar de muito nos impressionar uma afirmação recente do primeiro-ministro polaco: desde o fim da Segunda Guerra Mundial a ameaça de uma guerra na Europa nunca esteve tão próxima. A invasão da Ucrânia pela Rússia veio destruir o prognóstico de uma era de paz e prosperidade que se seguiria à queda dos regimes comunistas e o expansionismo russo é hoje temido como era no passado o expansionismo desses regimes.

Os países membros da NATO encaram o acréscimo de despesas militares para níveis nunca antes atingidos como uma forma de afastar esses perigos. Se essa opção pode ser compreensível, ela esquece, porém, que a paz autêntica e duradoura não nasce da lógica da ameaça e da dissuasão (a que leva a dizer: “se queres a paz, prepara a guerra”). Essa lógica gera um equilíbrio sempre instável e perigoso e uma espiral sem fim, com o desvio de verbas astronómicas necessárias para outros fins. A essa lógica não podemos resignar-nos, como se não houvesse alternativas.

A propósito da comparação entre a ameaça expansionista e autoritária do atual governo russo e a ameaça que representou o comunismo depois da Segunda Guerra Mundial, vem bem a propósito relembrar as palavras de São João Paulo II na sua encíclica Centesimus Annus (n. 23):

«Parecia que a configuração europeia, saída da Segunda Guerra Mundial e consagrada no Tratado de Ialta, só poderia ser abalada por outra guerra. Pelo contrário, foi superada pelo empenho não violento de homens que sempre se recusaram a ceder ao poder da força, e ao mesmo tempo souberam encontrar aqui e ali formas eficazes para dar testemunho da verdade. Isto desarmou o adversário, porque a violência sempre tem necessidade de se legitimar com a mentira, ou seja, de assumir, mesmo se falsamente, o aspeto da defesa de um direito ou de resposta a uma ameaça de outrem. Agradeço a Deus ainda por ter sustentado o coração dos homens durante o tempo da difícil prova, e pedimos-Lhe que um tal exemplo possa valer em outros lugares e circunstâncias. Que os homens aprendam a lutar pela justiça sem violência, renunciando tanto à luta de classes nas controvérsias internas, como à guerra nas internacionais.»

Este exemplo serve para demostrar como há alternativas à guerra para derrubar a injustiça e a opressão.  Alternativas que não são fáceis, exigem coragem, e, sobretudo, coerência no plano ético («dar testemunho da verdade»). Uma coerência que se pede a cada um dos cidadãos e à sociedade civil.

Nessa linha e no atual contexto, de ameaças de guerra na Europa e de guerras que parecem infindáveis na Médio Oriente, em África e noutras partes do mundo, os dirigentes do Movimentos dos Focolares, reunidos no passado mês de setembro, propuseram «abraçar e subscrever  com a nossa vida os seguintes compromissos: ser “artesãos da paz”, dispostos a superar ideologias e oposições; promover e apoiar redes de solidariedade para fornecer apoio material, psicológico e espiritual às vítimas de todas as guerras; fazer com que cada uma das nossas comunidades se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo e da compreensão mútua, onde se pratica a justiça e se constrói o perdão; promover programas educativos para incutir, sobretudo nas novas gerações, a cultura da paz, da inclusão e da não violência; e incentivar todas as iniciativas locais e globais que promovam o encontro e o diálogo inter-religioso e intercultural, fundamentais para a reconciliação».

> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova  de novembro de 2025