Uma Paz desarmada e desarmante
- Pedro Vaz Patto
- 20 Janeiro, 2026
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- Opinião
Logo na sua primeira alocução depois de ser eleito, o Papa Leão XIV referiu-se muito enfaticamente ao tema da paz, uma paz «desarmada e desarmante». Esse tema e essas palavras são retomadas na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano. Ouvi de quem acompanhou a sua preparação e divulgação a afirmação de que se trata de uma mensagem verdadeiramente programática, bem representativa das linhas que guiarão este pontificado que agora se inicia.
Que a paz é hoje um tema de particular acuidade, não há dúvida. As despesas com armamento têm crescido nos últimos anos de forma impressionante (e esta mensagem cita números irrefutáveis). O risco da “terceira guerra mundial aos pedaços” de que falava o Papa Francisco parece ser cada vez mais evidente. Reacendeu-se com extrema violência o conflito que desde há muito dilacera a Terra Santa. Em várias regiões (de África, designadamente) mantêm-se e agravam-se conflitos que recebem menos atenção e tendem a ser esquecidos pela comunidade internacional. Como resposta a uma guerra de agressão que de há muito não conhecia, a Europa planeia um rearmamento sem precedentes, desviando-se daquele projeto de paz e unidade que, depois da Segunda Guerra Mundial, pretendia evitar a repetição dessa tragédia.
Neste contexto, volta a emergir o velho adágio: “se queres paz prepara a guerra”. A guerra será uma fatalidade sempre presente na história humana. E a única forma de a evitar será através da dissuasão assente na ameaça de retaliação contra o potencial agressor, tanto mais eficaz quanto mais grave for essa ameaça. A suposta paz assim criada assenta na desconfiança e no medo, no “equilíbrio do terror”. É este princípio que subjaz ao projeto de rearmamento da Europa.
A mensagem de Leão XIV desfaz essa ideia com veemência, na linha do que também proclamaram os seus antecessores, como São João XXIII na encíclica Pacem im terris. Na verdade, a verdadeira paz não assenta na desconfiança e no medo. A guerra não é uma fatalidade. A corrida aos armamentos envolve sempre o perigo de passar da ameaça ao uso efetivo. Essa corrida gera uma espiral que pode não ter fim (porque à ameaça se responde com outra ameaça maior). Há alternativas que servem para construir essa paz autêntica, que certamente também não assenta na rendição perante a injustiça: a implementação do direito internacional, a diplomacia, a mudança de regimes por meios pacíficos (como sucedeu com muitas ditaduras). Mais verdadeiro é o adágio: “se queres a paz, prepara a paz”.
Mas os apelos desta mensagem, como das anteriores mensagens para o Dia Mundial da Paz, não se dirigem apenas aos responsáveis políticos, dirigem-se a todas as pessoas. A polarização que hoje exacerba muitos conflitos não se limita às relações entre políticos e entre governos, invade muitos âmbitos socias. O desarmamento que propõe esta mensagem é, antes de tudo, o «do coração, da mente e da vida».
A paz a que aludiu Leão XIV na sua primeira alocução e a que também alude nesta mensagem não é uma construção puramente humana, é a paz que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos («dou-vos a paz, deixo-vos a minha paz») é a «paz desarmada e desarmante, que vem de Deus que nos ama incondicionalmente». Desarmantes são a humildade e a bondade. «Talvez por isso Deus se tenha feito criança» – diz o Papa nesta mensagem.
> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova de janeiro de 2026
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