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A missão da Europa

Muito se vem falando nos dias de hoje da perda de protagonismo da Europa na cena internacional, no plano político e no plano económico. O protagonismo internacional centra-se cada vez mais em duas potências que se distinguem pelo crescimento económico assente na rápida inovação tecnológica, que a Europa não tem conseguido acompanhar: os Estados Unidos e a China.

Tornou-se célebre, como explicação desse atraso, o aforismo: Os Estados Unidos inovam, a China copia (já não é assim, porém, também ela inova) e a Europa regula

Critica-se a União Europeia por este seu afã regulatório, que é visto como travão para a inovação e o progresso. É verdade que a Comissão Europeia e os governos dos Estados membros já reconheceram que nela há que apostar mais na inovação e eliminar excessos de regulamentação, que poderão representar um desnecessário obstáculo.

Mas, perante os desafios e perigos com que se deparam hoje as sociedades, a regulação é necessária e só é de louvar que a União Europeia seja pioneira nesse campo. Assim, desde logo, no que se refere à preservação do futuro do planeta perante as alterações climáticas, ou os riscos do mundo digital e da inteligência artificial. Nesses, como noutros âmbitos, a União Europeia pretende ser pioneira e seria bom que o seu exemplo fosse seguido por outras instâncias. Não se trata de travar a inovação e o progresso, mas de os orientar, colocando-os ao serviço da pessoa e do bem comum. Trata-se de evitar que prevaleça a “lei do mais forte”.

O mesmo se diga quanto ao âmbito mais vasto das relações internacionais. Num cenário em que parece que a guerra volta a ser habitual (e foi para evitar isso mesmo que nasceu a União Europeia), importa afirmar o primado do direito internacional; também aqui, a “força do Direito” contra o “direito da força”. 

No confronto com essas potências emergentes, a Europa deve afirmar, contra, de um lado o primado do dinheiro e, do outro, o primado do Estado omnipresente, o primado da pessoa aberta à comunidade.

Assim será fiel (é verdade que nem sempre o tem sido nos últimos tempos) ao solene apelo a ela dirigido por São João Paulo II em 1982 em Santiago de Compostela:

«Volta a encontrar-te. Sê tu mesma. Descobre as tuas origens. Reaviva as tuas raízes. Revive aqueles valores autênticos que tornaram gloriosa a tua história e benéfica a tua presença noutros continentes. Reconstrói a tua unidade espiritual, num clima de pleno respeito por outras religiões e pelas genuínas liberdades. Dá a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Não te orgulhes pelas tuas conquistas até esquecer as suas possíveis consequências negativas. Não te deprimas pela perda quantitativa da tua grandeza no mundo ou pelas crises sociais e culturais que te afetam agora. Tu ainda podes ser o farol de civilização e estímulo de progresso para o mundo».

> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova  de abril de 2025