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A Europa e a Paz

Das primeiras palavras pronunciadas pelo Papa Leão XIV logo a seguir à sua eleição, merece destaque o seu apelo a uma paz «desarmada e desarmante». Um apelo que repetiu várias vezes desde então.

Suscita perplexidade o facto de a União Europeia, que pode ser caracterizada como um muito bem-sucedido projeto de paz, e por isso mesmo foi já agraciada com o prémio Nobel da Paz, estar agora seriamente empenhada num inédito reforço das suas despesas militares.

Na verdade, o projeto da unidade europeia nasceu dos escombros da Segunda Guerra Mundial, da vontade de nunca mais repetir tão trágica experiência, um drama que culminou séculos de conflitos bélicos que invariavelmente ensombraram a história do nosso continente. Uma nova era então se abriu, em que a esses conflitos se deveria suceder uma ordem internacional governada pelo direito, e já não pela força, e também pela cooperação económica geradora de uma interdependência que dificulta qualquer guerra. Mais até do que a prosperidade que conheceram as gerações europeias nascidas desde então, foi a paz de que elas usufruíram, e de que não usufruíram as gerações que as precederam, o fruto mais precioso do projeto de unidade europeia.

Depois da invasão da Ucrânia, essa nova era de paz parece ter chegado ao fim, como se ela não fosse mais do que um parêntesis que se fechou, e nos devêssemos resignar à habitualidade dos conflitos de poder e da guerra, ao predomínio do “direito da força” e já não da “força do direito”. A guerra de agressão e conquista (e já não apenas a “guerra fria”) regressou à Europa.

A ameaça que representam os propósitos expansionistas do governo russo não pode ser ignorada. Esta ameaça não é ignorada pelos representantes dos bispos europeus que integram a COMECE no comunicado que emitiram depois da sua última assembleia plenária, a 28 de março passado (acessível em www.comece.eu). Nele se reconhece que a União Europeia deve ser capaz de se proteger, de proteger os seus cidadãos e de proteger os valores em que assenta, e para tal proteção são justificados investimentos em defesa necessários, adequados e proporcionais.  

No entanto, também adverte tal comunicado que a União Europeia não pode deixar de ser aquele projeto de paz que está na sua base (ela é uma “promessa de paz” na expressão do Papa Francisco). Por isso, se por um lado, não podem as acrescidas despesas em armamento sacrificar despesas relativas à proteção da dignidade humana, à justiça social, ao desenvolvimento humano integral e ao cuidado da criação. Por outro lado, salienta também esse comunicado que essas despesas acrescidas não podem dar origem a uma corrida armamentista que não serve a causa da paz.

Na verdade, a paz autêntica e duradoura não nasce da lógica da ameaça e da dissuasão (a que leva a dizer: “se queres a paz, prepara a guerra”). Essa lógica gera um equilíbrio sempre instável e perigoso e uma espiral sem fim. A ela não podemos resignar-nos, como se não houvesse alternativas.A paz autêntica constrói-se com menos armas, não com mais. É certo que o desarmamento que constrói a paz tem de ser multilateral, não unilateral. Se for unilateral, pode ser um incentivo para guerras de agressão. Mas desse desarmamento multilateral não podemos nunca desistir e para tal devemos canalizar todos os esforços da diplomacia, da mobilização da opinião pública e da ação cívica em todos os Estados. É isso que se espera da União Europeia como “promessa de paz”. 

> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova  de julho de 2025