Alegrias e Esperanças
- Pedro Vaz Patto
- 23 Dezembro, 2025
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- Opinião
«As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» – estas palavras iniciais da Constituição Guadium et Spes, do Concílio Vaticano II, são frequentemente citadas – e bem – como feliz expressão do que se pretende seja hoje a postura da Igreja no seu relacionamento com o mundo. Exprimem a vontade de íntima união entre os cristãos e toda a família humana, o “fazer-se um” (de que falava Chiara Lubich) com as alegrias, esperanças, tristezas e sofrimentos de todas as pessoas. O sexagésimo aniversário da publicação deste documento (ocorrida a 7 de dezembro de 1965) é certamente uma boa ocasião para o reler e o levar à prática.
A uma postura de defesa e condenação sistemáticos, a Igreja, a partir do Concílio Vaticano II, quis substituir uma postura de abertura, de proximidade, e de diálogo com o mundo que a rodeia, um mundo por vezes hostil ou indiferente, mas também com sinais positivos de anseios pela verdade, pela bondade, pela beleza e pela justiça. Trata-se de procurar o que une e não apenas o que separa, de colher os “sinais dos tempos”, de descobrir no mundo sementes de bem e não apenas males a combater.
Já houve, porém, quem salientasse, depois destes anos, que era demasiado otimista a visão da Gaudium et Spes sobre o mundo contemporâneo e as suas conquistas. O crescimento económico e as conquistas da técnica não beneficiaram a todos por igual e provocaram desiquilíbrios ecológicos que põem em risco o futuro do planeta. Se a Igreja se quis aproximar do mundo, parece que este mais se afastou das leis de Deus, com a consequente acrescida desumanização.
Não é, porém, tão otimista como isso a visão da Gaudium et Spes sobre o mundo contemporâneo, nem a abertura que promove se deve confundir com a adesão acrítica às modas e à mentalidade corrente. Leia-se, por exemplo, o que aí se afirma (n.º 37):
«A Sagrada Escritura, confirmada pela experiência dos séculos, ensina à família humana que o progresso humano, tão grande bem para o homem, traz consigo também uma grande tentação: perturbada a ordem de valores e misturado o bem com o mal, os homens e os grupos consideram apenas o que é seu, esquecendo o dos outros. (…)
Por isso, a Igreja de Cristo, confiando no desígnio do Criador, ao mesmo tempo que reconhece que o progresso humano pode servir para a verdadeira felicidade dos homens, não pode deixar de repetir aquela palavra do Apóstolo: “não vos conformeis com este mundo” (Rom. 12, 2), isto é, com aquele espírito de vaidade e malícia que transforma a atividade humana, destinada ao serviço de Deus e do homem, em instrumento de pecado.»
Diante dos desafios, oportunidade e perigos, com que se confronta hoje a humanidade (a globalização económica, a inteligência artificial, o relativismo ético, as lutas de poder que conduzem a guerras), as lições da Gaudium et Spes sobre a relação da Igreja com o mundo continuam atuais, sessenta anos depois.
> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova de dezembro de 2025
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