A alegria do fumo branco
- Pedro Vaz Patto
- 14 Junho, 2025
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- Opinião
Quando na praça de São Pedro, em Roma, se vislumbrou fumo branco assinalando a nomeação de um novo Papa, verifiquei que com idêntico interesse e entusiasmo eram esses momentos seguidos em vários canais de televisão de vários países. Li, pouco depois, um comentário que me pareceu bem acertado: não há outra instituição do mundo cuja liderança desperte tanta atenção e não há figuras internacionais em que pessoas de tantos quadrantes reconheçam autoridade moral como reconhecem nos últimos Papas. Tudo isso sucede num mundo cada vez mais secularizado.
Também me levou a refletir o júbilo das pessoas que festejam, nessa praça e em todo o mundo, o fumo branco ainda antes de saberem quem será o novo Papa. Nunca esquecerei a alegria que intensamente experimentei quando, há doze anos, estava nessa praça e foi eleito o Papa Francisco. Esse júbilo é ainda maior quando é anunciada a identidade do novo Papa, mesmo que este seja para muitos mais ou menos desconhecido.
Essa alegria pode ter vários motivos. Um deles é o sinal de continuidade e vitalidade de uma instituição que está para além de todas as mudanças sociais e culturais, de todas as crises e mesmo dos erros e pecados dos seus membros. Vejo nisto a concretização das promessas de Jesus Cristo, seu fundador: «Estarei convosco até aos fins dos tempos». Dessa presença nascem frutos de santidade mesmo nas épocas mais trágicas de infidelidade, pecado e contra-testemunho.
Por outro lado, o Papa é um precioso instrumento de unidade da Igreja. Por isso, está acima de todas as clivagens e fações, é estimado como sucessor de Pedro, independentemente das suas características pessoais.
Reforçar a unidade da Igreja é um desafio com que é confrontado o Papa Leão XIV. É bom prenúncio que tenha sido eleito logo à quarta votação por mais de dois terços de um colégio tão diversificado quanto às origens geográficas e às sensibilidades culturais (o que também é raro no nosso mundo).
Leão XIV demonstrou logo a vontade de continuar a ação do seu antecessor imediato, Francisco. Mas também deu sinais de uma continuidade com todos os seus antecessores, como o do seu homónimo Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum, que lançou as bases da doutrina social da Igreja, uma encíclica sobre os direitos dos trabalhadores, que continua atual passados mais de cem anos.
Sobre o caminho sinodal lançado pelo Papa Francisco, a que já tinha dado notável contributo o novo Papa, salientou este que se trata de um caminho de maior participação e protagonismo de todos, mas um caminho que não se destina a criar mais divisões, antes a reforçar a unidade da Igreja.
Afirmou Margaret Karram, presidente do Movimento dos Focolares logo que soube da eleição de Leão XIV:
«Hoje o mundo precisa urgentemente de paz, de luz e de esperança. Por isso, prometemos que continuaremos a trabalhar, com as comunidades eclesiais nas quais estamos inseridos, para levar o amor de Deus a todos; estando abertos ao diálogo, para sermos “um único povo sempre em paz”, testemunhando que a unidade pedida por Jesus no seu Testamento é mais forte do que qualquer divisão.Comprometemo-nos também a concretizar cada vez mais fielmente o caminho sinodal, para o aplicar nos vários âmbitos da sociedade; a dar a nossa contribuição para que a Igreja seja uma casa aberta e acolhedora para cada homem e mulher e para as novas gerações, especialmente para aqueles que são mais frágeis, sofrem e são marginalizados, para oferecer a todos a mensagem sempre nova de Cristo.»
> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova de junho de 2025
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