Dramas esquecidos
- Pedro Vaz Patto
- 21 Fevereiro, 2026
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- Opinião
A visita do cardeal Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé, à região moçambicana de Cabo Delgado veio chamar a atenção da comunidade internacional para o drama que aí se continua a viver e que parece tornar-se um drama esquecido.
Calcula-se que desde 2007 mais de um milhão de pessoas (cerca de metade da população dessa região) foi vítima de deslocações forçadas motivadas pela fuga aos ataques terroristas dos chamados “insurgentes”, ataques de uma atrocidade inimaginável. Desses refugiados somente uma parte pôde ate hoje regressar às suas terras de origem. Os ataques já se estenderam às regiões de Nampula e Niassa e a cada nova vaga de ataques segue-se nova vaga de deslocados. São de toda a ordem as carências dessas pessoas.
Na origem da ação desses “insurgentes” está a instrumentalização da religião islâmica em prol de um projeto de poder político. A maioria dos fiéis muçulmanos da região rejeita essa instrumentalização, que vem quebrar a sua tradicional boa convivência com os cristãos. A pobreza e o desemprego de muitos jovens e o ressentimento diante da exploração de recursos naturais de onde não têm resultado benefícios visíveis para a população local em muito facilita o recrutamento de aderentes a esses grupos.
Já houve alturas em que as atenções de políticos, comunicadores e cidadãos em geral (entre nós e noutros países) estavam mais focadas neste drama, mas, como sucede com outros dramas, essas atenções são como ondas passageiras: rapidamente desaparecem ou são substituídas por outras. Mas os problemas e os sofrimentos continuam, por vezes nem sequer se atenuam. Daí que se fale em dramas esquecidos.
Como este drama da região de Cabo Delgado, outros também correm o riso de serem esquecidos pela comunidade internacional. São sobretudo aqueles que atingem regiões e povos mais distantes dos maiores centros de poder político, económico e mediático (designadamente em África ou na Ásia).
Assim, por exemplo, a guerra civil do Sudão, com os conflitos de poder e interétnicos que envolve, tem provocado aquela que muitos qualificam como a maior crise humanitária do planeta, com cerca de um quinto da população refugiada e dois terços com graves carências alimentares. A perseguição da minoria rohingya (por alguns considerada “genocídio”, por outros, pelo menos, “limpeza étnica”) em Myanmar pouca atenção tem merecido. Assim como a perseguição da minoria uigure na região chinesa de Xinjang (e a este silêncio não será alheio o crescente poderio económico da China). São esquecidos os ataques terroristas no Mali e no Burquina Fasso. É esquecida a ação contínua de bandos armados no Haiti.
Não será certamente apenas o conhecimento e atenção da comunidade internacional diante destes dramas a resolvê-los. Há que enfrentar as suas causas, por vezes complexas. Mas evitar que sejam esquecidos, por políticos, comunicadores e cidadãos em geral, é um primeiro passo, que cada um de nós, à sua medida, pode dar.
> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova de fevereiro de 2026
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