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O antí-vírus

Ao assistir impotente à difusão do coronavírus, o mundo inteiro (pelo menos o dito “mais desenvolvido”) parece ter recuado no tempo. Parece que regressámos aos tempos das pestes medievais, ou da epidemia que, há cerca de cem anos, vitimou os pastorinhos de Fátima. A sensação de impotência que então se experimentava, experimenta-se também agora. É verdade que a ciência muito progrediu desde então e isso quase nos fez esquecer a vulnerabilidade do ser humano diante da doença e da morte. Mas há que ter a humildade de reconhecer essa vulnerabilidade. 

Todos esperam que rapidamente se descubra uma vacina que possa eliminar este vírus. Mas há um anti-vírus que também ajuda a combatê-lo. É o anti-vírus da fraternidade.  

Uma pandemia faz correr o risco de ver no outro uma ameaça, alguém que pode contaminar-nos. Há o risco de que prevaleça a mentalidade do “salve-se quem puder”, ou “cada um por si”. Também há o perigo do reforço da xenofobia, quando se encara o estrangeiro como potencial transmissor.

A este respeito, é comovente a oferta de máscaras protetoras, que da China chegaram a Itália, acompanhada das frases seguintes: «Somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore, flores do mesmo jardim».

Na verdade, neste mundo globalizado, estamos todos no mesmo barco e o combate às pandemias exige esforços conjugados, mais do que muros de proteção.    

O combate ao coronavírus exige uma consciência mais apurada do bem comum, nacional e universal. Só unidos poderemos vencer o desafio. 

Dizem os especialistas (e revela-o a experiência dos países mais gravemente atingidos) que o coronavírus não causa, na maioria das pessoas infetadas, individualmente consideradas, danos acentuados. O seu maior perigo situa-se numa perspetiva comunitária, de saúde pública: pela sua rápida difusão, por atingir grupos particularmente vulneráveis e por exigir dos serviços de saúde recursos que poderão superar as suas disponibilidades (como se verificou em Itália)  

Impõe-se, por isso, não ceder a uma mentalidade individualista. Não há que pensar apenas nos perigos que corro, que serão maiores ou menores, mas nos riscos que correm outros, as pessoas mais vulneráveis. Não há que pensar tanto na contaminação de que eu possa ser vítima, mas na contaminação que eu, sem o saber, possa provocar noutros.   

É a consciência do bem comum que nos leva a ter em conta a repercussão social de cada nosso comportamento, por mais insignificante que possa parecer. Há que pensar no que sucederia se o meu comportamento (de limitação da minha liberdade de deslocação, por exemplo) se generalizasse, no bem, ou no mal, que decorreria dessa generalização. Pensar desse modo faz toda a diferença.

Há que dar todo o apoio aos grupos mais vulneráveis, como os idosos, evitando de todos os modos que eles tenham que se expor a riscos (fazendo compras por eles, por exemplo).

E há que dar todo o apoio aos profissionais de saúde, que nesta difícil situação se entregam sem reservas à sua missão e, desse modo, fazem difundir o anti-vírus da fraternidade.

> Artigo publicado na Revista Cidade Nova de abril de 2020