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Contra a Corrente

O acolhimento de refugiados e migrantes tem sido tema recorrente do magistério do Papa Francisco. Segue uma linha que já era a dos Papas que o precederam, que ele cita com frequência. Acrescenta-lhe o testemunho de gestos particularmente significativos, como a sua visita a Lampedusa, logo no início do seu pontificado, o acolhimento de refugiados de várias religiões no Vaticano, ou o convite a que cada paróquia siga esse exemplo.

 

Nesta como noutras matérias, proclamar a verdade e a justiça pode exigir remar contra a corrente.

 

Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, o Papa faz um apelo no sentido da aprovação dos Pactos Globais das Nações Unidas sobre Refugiados e para Migrações Seguras, Ordenadas e Regulares. Indica, nessa como noutras mensagens, os quatro verbos que deverão servir de orientação das políticas neste âmbito: acolher, promover, proteger e integrar. Com base nesse apelo, a plataforma de organizações católicas que, entre nós, acompanham a questão das migrações (FORCIM) publicou um manifesto que apresentou às autoridades portuguesas (que pode ser consultado em www.ecclesia/cnjp).

Estas mensagens e estas iniciativas vão contra uma corrente, que vai ganhando cada vez mais força e adeptos em vários países, de hostilidade para com refugiados e migrantes. A recusa de acolhimento de náufragos socorridos no Mediterrâneo, ou da recolocação noutros países de refugiados inicialmente acolhidos na Itália e na Grécia, são algumas das manifestações dessa corrente.

Nesta como noutras matérias, proclamar a verdade e a justiça pode exigir remar contra a corrente.

As migrações são, na sociedade globalizada de hoje, um fenómeno incontornável. Mas não são uma novidade, pois acompanham a história da humanidade desde há muito. A história do nosso país, como a de outros, revela como podem beneficiar quer os países de origem dos migrantes, quer os países de destino. Surgem das desigualdades de oportunidade de várias zonas do globo e podem contribuir para as atenuar.

O Papa não faz propostas irrealistas ou irresponsáveis. As migrações devem ser reguladas (os migrantes não devem ser deixados à mercê de redes de tráfico e auxílio à imigração ilegal) e reguladas de acordo com as efetivas possibilidades de integração nas sociedades de acolhimento.

E as migrações não são a panaceia para resolver todos os problemas dos países de origem e de destino. Podem contribuir para o desenvolvimento dos países de origem dos migrantes, mas não dispensam a necessidade de criar as condições que permitam exercer o direito a não emigrar e evitem o êxodo de jovens desses países. Também podem contribuir para atenuar os efeitos da crise demográfica da Europa, mas não eliminam essa crise na sua raiz.

Há quem tema a influência de culturas alheias à tradição cristã da Europa. Mas, como também já salientou várias vezes o Papa Francisco, uma consciência clara e madura da identidade cristã da Europa não teme o contacto com outras culturas, que a podem enriquecer, como sucedeu no passado. Fortalece-se com atitudes coerentes com o espírito cristão, mais do que com sinais externos (não tem sentido pretender marcar a identidade cristã com a presença de crucifixos em locais públicos quando se é insensível ao drama de refugiados que sofrem como Jesus crucificado). O Evangelho manda acolher com amor o estrangeiro («Era estrangeiro e acolheste- -Me…»). E não se trata, como já se tem dito para justificar certas políticas, de um comando válido apenas nas relações interpessoais, e não também nas relações entre povos e Estados.

As influências de correntes de hostilidade a refugiados e migrantes ainda não atingiram o nosso país. Talvez a nossa história de povo de migrantes («Para nascer Portugal, para morrer o mundo» – dizia o Pe. António Vieira) contribua para isso. Mas talvez também o facto de não termos recebido tantos refugiados e imigrantes como outros países europeus. Há, pois, que estar alerta…

 

>  Artigo publicado na Revista Cidade Nova de outubro de 2018

 

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