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A economia de Francisco

O Papa Francisco convocou jovens economistas, empresários e “agentes de mudança” (change makers –inovadores sociais) para um encontro em Assis, de 26 a 28 de março, designado: “A economia de Francisco”. 

A proposta é refletir juntos, e também com conceituados economistas, sobre uma nova economia, uma economia (diz a mensagem-convocatória, datada de 1 de maio do ano passado) «que faz viver e não mata, que inclui e não exclui, que humaniza e não desumaniza, que cuida da Criação e não a saqueia». Mas não se trata apenas de refletir: do encontro deverá surgir um pacto, um compromisso, no sentido da mudança para (diz também essa mensagem) «dar uma alma à economia de amanhã», para corrigir «modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado pela família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores, os direitos das gerações futuras». Mudança para construir um modelo económico novo que seja «fruto de uma cultura da comunhão, baseado na fraternidade e na equidade». 

Não é por acaso que são jovens os participantes: porque deles depende, mais do que dos que hoje detêm o poder, a economia de amanhã. 

A escolha de Assis e a referência do título do encontro a São Francisco não são casuais. Ao contrário do que se poderia pensar, a espiritualidade franciscana, com a sua exaltação da pobreza voluntária, fez surgir pensadores que lançaram, no século XIV, as bases de uma economia de mercado ao serviço da pessoa, assim como experiências financeiras de serviço aos mais pobres (os Monte Pietà) (Monti di Pietà) que poderão ser vistas como antecessoras do atual microcrédito. E essa espiritualidade também influencia a proposta de uma ecologia integral, que consta da encíclica do Papa Francisco Laudato Sì. 

Que o sistema económico que hoje predomina não satisfaça exigências de justiça e fraternidade universal, deve-se ao facto, sobretudo, da extrema desigualdade que gera. Segundo dados da organização Oxfam Intenational, a partir de 2016, mais de metade da riqueza mundial passou a ser possuída por apenas 1% da população (e esta percentagem até vem diminuindo). Ainda que em termos globais muitas pessoas tenham saído da pobreza extrema, estes dados não são próprios de uma sociedade justa e fraterna. Diz o Papa na mensagem já referida: «Enquanto o nosso sistema económico-social produzir ainda uma qualquer pessoa descartada, não poderá existir a festa da fraternidade universal».

No ano do centenário do nascimento de Chiara Lubich, será oportuno recordar que a proposta por ela lançada, no Brasil, em 1991, de uma «economia de comunhão na liberdade» pode ser vista como um contributo (não o único, certamente) para a «economia de Francisco» a que apela o Papa. A proposta de Chiara foi, simplesmente, de viver a lei evangélica do amor recíproco na economia, como na vida em geral, sem dualismos.

O fervilhar de iniciativas já realizadas (também em Portugal) de preparação para este encontro, e de outras que já se prevêem como sua continuação, permitem dizer que não será certamente um acontecimento isolado e sem consequências. Muitos frutos inesperados dele já nasceram e muitos outros mais hão de nascer.

> Artigo publicado na Revista Cidade Nova de março de 2020