Todos irmãos
- Pedro Vaz Patto
- 12 Novembro, 2020
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- Opinião
Do legado de Chiara Lubich, de cujo nascimento celebramos este ano o centenário, pode destacar-se o seu apelo a que a fraternidade se torne uma categoria política, realizando, assim, plenamente o mote da Revolução Francesa (liberdade, igualdade, fraternidade), pois só a fraternidade permite conciliar as exigências da liberdade e da igualdade (muitas vezes contrapostas).
A fraternidade na política, na economia, no diálogo em geral e em especial no diálogo inter-religioso, é o tema central da encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti, certamente um dos mais relevantes documentos do seu pontificado. Dos muitos aspetos nela abordados, podemos destacar o que se relaciona com as relações internacionais.
O apelo à abertura universal da fraternidade confronta-se hoje com o reforço, um pouco por todo o lado, de correntes inspiradas num nacionalismo de exclusão. A encíclica aborda este tema, salientando, por um lado, o fundamento bíblico dessa abertura e, por outro lado, desfazendo receios de que ela leve à perda das identidades nacionais diante de uma globalização uniformizadora.
Quanto ao fundamento bíblico da abertura à fraternidade que não exclui os estrangeiros, são evocadas passagens do Antigo Testamento e é apresentada a parábola do Bom Samaritano, situando-a no contexto judaico, de forte hostilidade para com os samaritanos: uma forte provocação no sentido da superação de preconceitos e barreiras históricas e culturais (n. 83).
A encíclica salienta como a abertura a outras culturas é enriquecedora para pessoas e povos: «uma pessoa e um povo só são fecundos se souberem criticamente integrar no seu seio a abertura aos outros» (n. 41). A globalização não deve uniformizar e destruir «a riqueza e singularidade de cada pessoa e de cada povo» (n. 100). Mas uma cultura que se fecha pode sofrer de “esclerose”: «uma sã abertura não ameaça a identidade, porque ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades, segundo modalidades próprias», o que provoca «o nascimento de uma nova síntese, que, em última análise, beneficia a todos» (n. 148). Isto é assim porque nenhum «povo ou cultura pode obter tudo de si mesmo» (n. 150). E, em conclusão: «Toda a cultura saudável é por natureza aberta e acolhedora, não estática» (n. 146).
A esta luz é encarado o fenómeno das migrações, cada vez mais incontornável no mundo de hoje. Mas também numa perspetiva de justiça social, à luz do princípio do destino universal dos bens. Cada nação é co-responsável pelo desenvolvimento de todas as pessoas, o que pode traduzir-se de dois modos, que não se excluem mutuamente: no acolhimento de imigrantes e no contributo para o desenvolvimento dos países de origem destes (n. 125). É verdade que o ideal seria que a emigração não fosse necessária, mas enquanto não houver sérios progressos no sentido do desenvolvimento dos países pobres, há que reconhecer o direito de cada pessoa a encontrar um lugar onde não só possa satisfazer necessidades básicas, mas também realizar-se plenamente como pessoa (n. 129).
Muitos outros aspetos justificam a leitura desta encíclica (acessível em www.vatican.va), na qual podem colher ensinamentos cristãos de várias denominações, fiéis de outras religiões e todas as pessoas que se movem por ideais de fraternidade.
> Artigo publicado na Revista Cidade Nova de novembro de 2020
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