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Um Inédito Natal ?

No momento em que escrevo, ainda não se sabe como viveremos a próxima quadra natalícia. Já desde há algum tempo, ouve-se dizer que há que “repensar o Natal”. Perante o assustador crescimento de infeções do coronavírus, anunciam-se medidas mais restritivas e de quase confinamento e diz-se que estas medidas se justificam, precisamente, para evitar que o Natal deste ano seja vivido como o foi a última Páscoa: em isolamento domiciliário, com severas restrições ao habitual e festivo convívio familiar. 

Esta perspetiva (ainda incerta nesta altura) e o temor e angústia que está a gerar, mostra como os portugueses valorizam a quadra natalícia como ocasião de festa, que consolida e reforça os mais queridos laços familiares.  Uma tradição tão forte como esta, que tem sobrevivido à sucessão de gerações e a tantas mudanças sociais, não pode apagar-se de um dia para o outro. A quebra desta dimensão da tradição do Natal, surge aos olhos de quase todos como um sofrimento a evitar a todo o custo, da mesma forma que procura evitar-se a expansão da pandemia e a crise económica e social. Na verdade, essa dimensão festiva e familiar do Natal contribui grandemente para a saúde e bem-estar psicológicos de muitas pessoas e nenhum governante sensato poderá ignorar isso.  

Mas a perspetiva de um Natal vivido de uma forma inédita também poderá servir para redescobrir o seu sentido originário, que também explica em grande parte a sua dimensão de festa da família, mas que vai muito para além desta dimensão.

Afirmou um dia Chiara Lubich, aludindo ao nascimento de Jesus que se celebra no Natal, que «aquele menino é o princípio da revelação do amor de Deus para connosco». Deus habitou entre nós, aproxima-se de cada um de nós, não nos deixa sozinhos nunca, partilha as nossas debilidades e sofrimentos. De um modo especial, aproxima-se e partilha os sofrimentos dos mais pobres e vulneráveis (Ele próprio nasceu pobre e vulnerável). Partilha também as debilidades e sofrimentos de quem se vê confrontado com um vírus mortal, que desfaz e desorienta tudo o que, de bom e de mau, têm construído as civilizações.

Redescobrir esta verdade é viver a dimensão mais profunda do Natal. Mas essa dimensão mais profunda pode ser vivida também no mais estrito confinamento.

É verdade que a celebração litúrgica do Natal é importante, pela sua dimensão presencial e comunitária. Afirmou o Papa Francisco na sua homilia de 17 de abril passado: «O ideal da Igreja é sempre com o povo e os sacramentos. Sempre. Não se pode virtualizar a Igreja». Nesta altura, é de esperar que, a este respeito, não venha a suceder o que sucedeu na última Páscoa, em que quase todos tiveram que assistir às celebrações nas suas casas, pela televisão ou pela internet.

Mas mesmo que tal venha a suceder, essa dimensão do Natal, como redescoberta do amor de Deus para connosco, pode ser vivida com a mesma intensidade. Nem a pandemia, nem as medidas para a combater, podem impedi-lo.

> Artigo publicado na Revista Cidade Nova de dezembro de 2020