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O retorno da JMJ

A propósito dos custos da realização da Jornada Mundial da Juventude e da assunção de parte desses custos por entidades públicas de um Estado laico, tem sido invocado o seu retorno financeiro: a esperada participação de cerca de um milhão de jovens de todo o mundo será um contributo para a dinamização da economia que compensará esses gastos.

Quanto à eventual incompatibilidade desses apoios com o princípio da laicidade do Estado, há que relembrar a diferença entre laicidade e laicismo. Laicidade não significa (como o laicismo) hostilidade para com a religião ou indiferença para com a sua relevância social e cultural. Um Estado laico (isto é, que não professa uma qualquer religião, mas também não uma ideologia hostil à religião) não tem que ignorar que a sociedade não é laica. Se o fizer não cumpre a sua missão de serviço à sociedade.

Expressão desta visão “aberta” e “positiva” da laicidade é o princípio da cooperação entre o Estado e as comunidades religiosas, consignado no artigo 5.º da Lei da Liberdade Religiosa: «O Estado cooperará com as igrejas e comunidades religiosas radicadas em Portugal, tendo em consideração a sua representatividade, com vista designadamente à promoção dos direitos humanos, do desenvolvimento integral de cada pessoa e dos valores da paz, da liberdade, da solidariedade e da tolerância.»

Ao abrigo deste princípio de cooperação, parece não suscitar dúvidas a legitimidade das várias formas de apoio que a realização da Jornada Mundial da Juventude tem recebido e vai receber dos poderes públicos (sem querer aqui discutir o montante de cada uma das despesas em causa), do governo e de autarquias locais de vários pontos do país e de várias tendências políticas. Todos estes políticos, católicos e não católicos, reconhecem a relevância social deste evento.

Mas o retorno da Jornada Mundial da Juventude não se reduz, não pode reduzir-se, ao seu aspeto financeiro. Há outras formas de retorno bem mais importantes.

Alude a definição desse princípio da cooperação ao «desenvolvimento integral de cada pessoa». Pois bem, eu próprio, e muitas pessoas da minha geração, que participámos nas primeiras Jornadas Mundiais da Juventude, podemos testemunhar como elas foram marcantes nas nossas vidas, nos ajudaram a descobrir a nossa vocação, o Ideal que até hoje nos guia.

E alude também essa definição aos «valores da paz, da liberdade, da solidariedade e da tolerância». Pois bem, estes encontros, que reúnem jovens

de todos os cantos da Terra, refletem bem a universalidade da Igreja Católica (“católica” significa isso mesmo: universal, sem aquele sentido faccioso que por vezes lhe é atribuído). De modo especial, a Jornada deste ano será inspirada nas mensagens do Papa Francisco, naqueles temas a que ele tem dado particular relevo: a amizade social, o cuidado da casa comum, o diálogo entre culturas e religiões, a economia ao serviço da pessoa, a fraternidade universal. Esta fraternidade universal há de ser vivida naqueles dias (nas famílias, paróquias e todas as entidades que acolhem os peregrinos, no trabalho abnegado dos voluntários) e no futuro dessa multidão de jovens. 

A este retorno da Jornada Mundial da Juventude ninguém poderá ficar indiferente.

> Artigo publicado no editorial da Revista Cidade Nova  de abril de 2023