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O que vale uma vida

São várias as lições que podemos colher da tragédia da pandemia da Covid-19. Aquela que me parece mais importante é a da redescoberta do valor supremo da vida humana, de toda e qualquer vida humana. Todas as mudanças do nosso quotidiano, todo o caos económico e social que se está a gerar, só têm justificação porque todos queremos salvar vidas humanas. Esperam-se danos económicos de valor incalculável, um desemprego generalizado e um agravamento da pobreza. Mas acima desses danos está o valor da vida humana. 

Entre nós parece não haver dúvidas a esse respeito, entre pessoas de convicções muito diferentes, que nisso estão de acordo, apesar de não estarem de acordo em muitas outras coisas. É um facto a salientar. Noutros países, há mais hesitações e uma ou outra voz, entre políticos e académicos, se ouviu questionar o elevado preço económico deste objetivo de salvar vidas humanas a todo o custo, como se pudéssemos aceitar sacrificar algumas (mais vulneráveis e menos produtivas) em favor do bem-estar económico da maioria. Mas mesmo em contextos culturais diferentes do nosso, essas vozes não têm tido muita aceitação. 

Não podemos, certamente, ignorar a crise económica que se avizinha, que muitos afirmam de dimensão incomparável. Mas para ela haverá sempre um remédio num empenho redobrado (também ele maior do que nunca) na solidariedade. É o que acabo de ler numa entrevista ao economista Daniel Bessa: aqueles que forem poupados à crise, porque têm lucros ou salários garantidos, deverão fazer esse esforço redobrado. 

O valor a preservar é, sobretudo, o da vida de pessoas idosas, a maioria das vítimas mortais desta pandemia. Por variados motivos, também vimos assistindo a uma progressiva marginalização dessas pessoas, cada vez mais numerosas em muitos países, mas nem sempre reconhecidas na sua riqueza insubstituível. Será esta uma ocasião de redescobrir essa riqueza, pela qual valem a pena todos os sacrifícios por que estamos a passar.

A este respeito, será de referir os debates que têm surgido a respeito dos critérios de seleção das vidas a salvar quando os equipamentos médicos são escassos e não podem beneficiar a todos. Podem ser necessárias opções quando nem todos os doentes têm iguais possibilidades de sobrevivência, para que o uso desses equipamentos não venha a revelar-se inútil. Mas não há vidas mais dignas, ou mais valiosas do que outras. O valor da vida não se mede pelo número de anos de “expectativa de vida” (expectativa sempre falível, para além do mais). Esse valor é sempre o mesmo, para novos ou velhos.

Também não pode ser critério de seleção a “qualidade de vida” esperada ou a “utilidade social” da pessoa. Por isso, suscitaram grande oposição as diretivas aprovadas por alguns Estados norte-americanos, que pretendem excluir pessoas com deficiências físicas ou mentais. A propósito da “utilidade social”, afirmou o Comité de Bioética de Espanha que «todo o ser humano, pelo facto de o ser, é útil, considerando o próprio valor ontológico da dignidade». Ou seja, cada vida humana tem um valor intrínseco, apenas pelo facto de ser humana, para além das suas qualidades.

Esta trágica experiência faz-nos descobrir o valor de cada vida humana, mas também a sua precariedade e a realidade incontornável da morte. Pode, então, levar-nos também a redescobrir Deus, a quem devemos a vida e que nos chama à Vida eterna.

> Artigo publicado na Revista Cidade Nova de maio de 2020